domingo, 17 de julho de 2011

Reportagem do Estadão

Casa da mãe Jurema

Por Jotabe Medeiros


Vai para as livrarias Solar da Fossa, o livro que conta saga de pensão carioca onde fermentou, nos anos 60, o pop nacional.

De 1964 a 1971, uma pensão instalada num casarão de dois andares na Avenida Lauro Sodré, em Botafogo (onde hoje é o Shopping RioSul) abrigou a grande faísca da cultura pop brasileira. Ali viveram, em momentos simultâneos ou distintos, Gal Costa, Tim Maia, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Betty Faria, Antônio Pitanga, Zé Kétti, Guarabyra, Caetano Veloso, entre inúmeros outros.
Os de passagem eram igualmente famosos: o bailarino Lenny Dale, o escritor francês Jean Genet, o cantor Milton Nascimento, o ator José Wilker, o artista plástico Hélio Oiticica. Ali foram gestadas canções como Alegria Alegria, de Caetano Veloso, e Sinal Fechado, de Paulinho da Viola. O guitarrista dos Fevers e o policial do esquadrão da morte Mariel Mariscott exibiram sua batida (o primeiro) e suas correntes de ouro (o segundo).
"Curtíamos a falta de comida e a luta pelo sucesso", conta hoje a atriz Darlene Glória. O Solar da Fossa ficou para a cultura pop brasileira como o Chelsea Hotel para a cultura pop nova-iorquina (no lendário Chelsea viveram artistas como Patti Smith, Robert Mapplethorpe, Joni Mitchell, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Leonard Cohen e outros). O problema é que a história do Solar esfarelou-se com sua demolição, em 1974.

Finalmente, chega às livrarias amanhã um volume que conta toda essa história, remontada pelo escritor curitibano Toninho Vaz (autor de O Bandido que Sabia Latim, biografia de Paulo Leminski). Solar da Fossa - Um Território de Liberdade, Impertinências, Ideias e Ousadias (Ed. Casa da Palavra) chega com um atraso de 3 anos - chegou a ser impresso na Ed. Record, mas um desacordo entre autor e editora melou a publicação.
Na pensão da sexy e misteriosa Dona Jurema, figura que excitava a imaginação dos moradores (e que é descrita por Caetano Veloso no livro Verdade Tropical), o mundo cultural brasileiro como o conhecemos hoje dividia cigarros e bebidas e sonhava com o futuro. Chico Buarque conheceu Marieta Severo ali naquele pátio. Caetano compôs ali sua primeira canção tropicalista, Paisagem Útil.

Solar da Fossa era o nome de "fantasia" do local, batizado pelo carnavalesco salgueirense Fernando Pamplona - que foi parar lá após separar-se da mulher. Seu verdadeiro nome era Pensão Santa Terezinha. O homem ia à Lua, vivia-se a Era de Aquarius, o AI-5 tolhia as liberdades políticas, Charles Manson assassinava Sharon Tate. No Solar, o clima era outro: solidariedade, parcerias artísticas, delírio, ritmo dionisíaco regado a uísque London Tower e conhaque Dreher. E galhofa. O compositor Guarabyra dedicou-se a usar seu gravador para registrar ruídos de uma transa do ator Antônio Pedro com a namorada, e cujo resultado foi exibido no Teatro Casa Grande.

Quase ninguém tinha carro, atravessava-se o Túnel Novo a pé; jogavam-se peladas no pátio, ensaiavam-se peças de teatro e musicais pelos quartos, escreviam-se romances que mudariam a história da literatura (foi lá que Paulo Leminski escreveu o seu famoso Catatau). "A média de idade no Solar devia ser de 23, 24 anos. Eu era dos mais jovens - 19 anos quando fui morar lá, em dezembro de 1967, depois de mais de um ano de flerte com o lugar", conta o escritor Ruy Castro.
"No meu apartamentinho no Solar da Fossa, comecei a compor uma canção que eu desejava que fosse fácil de apreender por parte dos espectadores e, ao mesmo tempo, caracterizasse de modo inequívoco a nova atitude que queríamos inaugurar", escreveu Caetano Veloso em suas memórias. "Tinha de ser uma marchinha alegre, de algum modo contaminada pelo pop internacional, e que trouxesse na letra algum toque crítico-amoroso sobre o mundo no qual esse pop se dava". E assim nasceu Alegria Alegria ("Mandei plantar/folhas de sonho no Jardim do Solar").
"O Solar tem um perfil mítico porque muito se fala dele e pouco se conhece. A maioria diz: Eu já ouvi falar!", conta o autor, Toninho Vaz. Ao contrário da tradição europeia e americana, que põe plaquinhas nos lugares onde a História se desenvolveu, do Solar - ficaria ali entre o Canecão, o Shopping e o túnel - não sobrou nem poeira. Vive só na memória dos que o habitaram. (continua abaixo)
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NASCIDAS NO SOLAR
Músicas compostas no local
- Cristina e Padre Cícero, de Tim Maia
- Alegria Alegria; Panis et Circenses e Paisagem Útil, de Caetano Veloso
- Quero voltar pra Bahia; Pingos de amor; Um chope pra distrair, de Paulo Diniz
- Roda Viva, o arranjo do MPB 4 para a música de Chico
- Sinal Fechado, Paulinho da Viola
- Stella, de Fabio

(O Estado de São Paulo – 7/07/2011)

Veja a reportagem completa no link:
http://www.estadao.com.br/noti​cias/arteelazer,casa-da-mae-ju​rema,741468,0.htm

Um comentário:

Claudia Antonia Weiss disse...

TONINHO A MUSICA MENINA DE PAULINHO TAMBEM NASCEU LA. BSSSSS CLAUDINHA WEISS