quinta-feira, 3 de junho de 2010

Wilson Bueno, alguma memória

No palacete do tico-tico, 2006. Foto de João Santana.

O paranaense Wilson Bueno era daquela espécie rara de escritores cuja vaidade e pudor não permitem raciocínios medíocres ou idéias que não sejam originais. A sua narrativa de vida revelava isso. Desde cedo trilhou um caminho de alta informação literária que o aproximou, antes e depois do Solar da Fossa, de gente como Paulo Leminski, Clarice Lispector, Ligia Fagundes, João Antonio, Caio Abreu e Jamil Snege, seus amigos dentro e fora dos livros. O melhor show do Bueno eram as histórias do cotidiano, que ele contava com impagável humor e apurada técnica de saltimbanco. Na redação de O Globo, nos anos 60, esperava Nelson Rodrigues ir ao banheiro para correr até a máquina de escrever do mestre e arrematar a frase ou raciocínio que tivesse sido deixado na lauda... Uma traquinagem. Apesar de conterrâneo, vim conhecê-lo no Rio de Janeiro, em 1974, na casa de um terceiro conterrâneo, o também jornalista Manoel Wambier. Eu chegava ao Rio e o Bueno fazia o caminho inverso, voltava a Curitiba depois de alguns anos de intensa experiência carioca. “Meu passado me condena”, ele dizia. “Mas meu futuro vai me condenar ainda mais”. Criador do jornal NICOLAU, de saudosa memória, Bueno deixou fixado no meio literário um padrão de competência e bom gosto na escolha de temas e autores. Editado pelo Governo do Estado, NICOLAU tinha independência suficiente para revirar o melhor da literatura mundial e apresentar novos valores. Na condição de correspondente carioca e ao redor do mundo, lembro de ter publicado pelo menos meia dúzia de vezes naquelas santíssimas páginas. Uma das minhas colaborações, a entrevista com Paulo Francis em Nova York, tinha deixado o Bueno, na condição de editor, profundamente vaidoso ao me congratular: “Toninho, meu querido, nunca o Francis condenou a nossa audaciosa entrevista – que o Millôr, em sua coluna no JB, saudou como uma das mais sinceras já concedidas por Francis”. O Bueno morreu no domingo último, dia 30, assassinado em sua casa na Vila Tingui – que ele chamava de Palácio do Tico-tico. Nossa última conversa pelo telefone aconteceu na quarta-feira, quando liguei para dizer que estava indo a Curitiba no dia seguinte, para uma semana de trabalho. “Se tiver tempo eu ligo”, avisei. Ele foi definitivo: “Você sabe que eu não saio de casa. Venha até aqui tomar café comigo... Temos muito que conversar”. Toninho Vaz, de Santa Teresa

6 comentários:

vermelho disse...

Toninho, que triste noticia!...e que coisa bárbara!!!...tempos bicudos esse que vivemos, meu amigo!..Não conhecí, de perto, o Wilson Bueno. Só o conhecí através de amigos comum, como voce. Que descanse em paz!

Toninho Vaz disse...

Pois é, Américo, coisa triste mesmo. Eu, por acaso, estava em Curitiba e tudo acompanhei de perto. Fui à casa do Bueno, na Vila Tingui, e tudo estava cercado pela Polícia e carros da Imprensa.

FELIPE CERQUIZE disse...

Belas memórias, Toninho. O que me deixa mais puto é ter de viver no meio dessa sociedade cada vez mais atroz. Abraço.

Valéria Martins disse...

Caramba, eu não sabia que ele tinha sido assassinado. Mais um artista morto de forma violenta, antes dele foi o Glauco. Cruzes!

Beijos, querido Toninho

Toninho Vaz disse...

Meninos e meninas, o Bueno deixou um livro pronto com a Planeta. Eu li o primeiro capítulo e posso garantir que vai ser um sucesso: "Mano, a noite está velha".

Marco Vasques disse...

Toninho, eu fiz uma homenagem a ele no nosso blog www.poetanosingular.blogspot.com Veja lá. É foda, né!