(texto para o livro "Imprensa Alternativa Brasileira e Contracultura", de Bruno Amorim – 4ª. capa - no prelo - sem título)
Alguém já registrou na memória quantas vezes ouviu dizer que o Brasil é um país sem memória?
Portanto, qualquer contribuição para diminuir o silêncio das bibliotecas será bem vinda, especialmente quando se mostrarem eficientes, destas que nos permitem enxergar a fralda do nosso tecido histórico.
Esta pesquisa de Bruno Amorim tem vários méritos, além do literário. Ao registrar as cenas acontecidas nas correntes do engajamento, em maio de 68, direciona o olhar no sentido oposto, na contracultura dos acontecimentos. E vasculha a literatura pertinente.
Por estas páginas circulam com exatidão os gurus da nova (velha) era, procurando dar um sentido a tudo que nascia: Allen Ginsberg, Marcuse, Wilhen Reich, Thimoty Leary, Aldous Huxley ... Luis Carlos Maciel, Paulo Leminski e Torquato Neto.
O paradigma perfeito.
Toninho Vaz, abril 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Rocks rurais
O colunista Reinaldo Bessa, d´A Gazeta do Povo (Curitiba), onde tive meu primeiro emprego de repórter, publicou uma frase que escrevi quando soube da morte do Ivo, na semana passada. Eu dizia, em outras palavras, que sempre recorri à Tia Marli quando queria ir a Woodstock.Alguém que eu não conheço, entre os leitores do Bessa, mandou para o jornal esta foto onde aparecemos cantando um rock rural, claro. Eu e o Ivo, dois ursos bebendo nas colinas curitibanas. Saudades.
(fotógrafo ainda não identificado)
Toninho Vaz, de Santa Teresa
sábado, 10 de abril de 2010
Pé na estrada
Ivo nos anos 70. Foto Dico Kremer.Com o Ivo cantei muitos rocks rurais
Morre em Curitiba o músico Ivo Rodrigues, o Ivo da Chave e da banda Blindagem. Talentoso cantor e guitarrista, meu amigo desde os anos 60, era o cara que me transportava a Woodstock sempre que eu precisava estar lá.
Quando entrei num boteco no balneário de Matinhos, no Paraná, numa noite de verão, pra tomar uma cerveja, ele estava nos fundos, tocando violão e cantando (como se estivesse em Woodstock) Do you wanna dance? de Johnny Rivers. A voz solta e os cabelos compridos chegaram primeiro e fui logo me manifestando na segunda música:
- Bicho, você gosta de tocar o que eu gosto de ouvir.
Ele mandou outras de igual calibre, Beatles, Donovan, Ronnie Cord,... Nos tornamos amigos próximos, com tratamento de compadre, muitas viagens, baseados, sempre a caminho do rio das pedras na estrada para Santa Catarina. Dois casais (as namoradas também eram amigas), duas barracas e o violão.
O Ivo estava começando a se notabilizar como o vocalista d´A Chave, a banda que tinha também o Orlando, o Paulinho, o Eli e o Zito, no contra-baixo, logo substituído pelo Carlão Gaertner. O Ivo e o cenário da Casa Branca, nas Mercês: tudo a ver.
Foram dias certos e criativos e nossas visitas a casa de Paulo Leminski e Alice, nas Mercês e depois no Pilarzinho, eram verdadeiros orgasmos coletivos em torno de música e poesia. Sorte minha por estar sempre ao lado dos dois, ouvindo o Ivo cantar e o Paulo poetar.
(Para aqueles que têm um exemplar da biografia Paulo Leminski, o bandido que sabia latim, existe algum registro destes encontros a partir da página 140).
Mas não está no gibi a visita que o Ivo nos fez à casa da rua Xavier Leal, em Ipanema, no final dos anos 70. Ele ligou antes dizendo que estava a caminho e quando chegou foi logo tirando uma fita cassete do bolso, explicando que era o playback do disco que estava gravando com a banda Blindagem (gravadora Continental), em São Paulo. “Está tudo ensaiado”, ele disse. Sentou-se no chão, à altura das caixas, deu um play no aparelho e começou a cantar. Cantou inspirado o disco inteiro... Foi simplesmente espetacular: Sou legal eu sei, Não posso ver, Marinheiro, todas... Não houve interrupção... Ele se exibiu muito pra Naná, que durante anos lembraria esta cena como um momento mágico e deslumbrante na vida de todos nós. (Eu tive a oportunidade de conversar com o Ivo, tempos depois, sobre este dia e sobre aquela luz.)
Impossível, no calor da despedida, fazer um relato fiel ou mesmo aproximado dos vários talentos do Ivo, como cantor, ator (foi o destaque na versão apresentada no Teatro Guaira para o Rock Horror Show) ou daquilo que vivemos juntos como amigos. Perdi muito da minha inocência hoje.
Toninho Vaz, de Santa Teresa
Quando entrei num boteco no balneário de Matinhos, no Paraná, numa noite de verão, pra tomar uma cerveja, ele estava nos fundos, tocando violão e cantando (como se estivesse em Woodstock) Do you wanna dance? de Johnny Rivers. A voz solta e os cabelos compridos chegaram primeiro e fui logo me manifestando na segunda música:
- Bicho, você gosta de tocar o que eu gosto de ouvir.
Ele mandou outras de igual calibre, Beatles, Donovan, Ronnie Cord,... Nos tornamos amigos próximos, com tratamento de compadre, muitas viagens, baseados, sempre a caminho do rio das pedras na estrada para Santa Catarina. Dois casais (as namoradas também eram amigas), duas barracas e o violão.
O Ivo estava começando a se notabilizar como o vocalista d´A Chave, a banda que tinha também o Orlando, o Paulinho, o Eli e o Zito, no contra-baixo, logo substituído pelo Carlão Gaertner. O Ivo e o cenário da Casa Branca, nas Mercês: tudo a ver.
Foram dias certos e criativos e nossas visitas a casa de Paulo Leminski e Alice, nas Mercês e depois no Pilarzinho, eram verdadeiros orgasmos coletivos em torno de música e poesia. Sorte minha por estar sempre ao lado dos dois, ouvindo o Ivo cantar e o Paulo poetar.
(Para aqueles que têm um exemplar da biografia Paulo Leminski, o bandido que sabia latim, existe algum registro destes encontros a partir da página 140).
Mas não está no gibi a visita que o Ivo nos fez à casa da rua Xavier Leal, em Ipanema, no final dos anos 70. Ele ligou antes dizendo que estava a caminho e quando chegou foi logo tirando uma fita cassete do bolso, explicando que era o playback do disco que estava gravando com a banda Blindagem (gravadora Continental), em São Paulo. “Está tudo ensaiado”, ele disse. Sentou-se no chão, à altura das caixas, deu um play no aparelho e começou a cantar. Cantou inspirado o disco inteiro... Foi simplesmente espetacular: Sou legal eu sei, Não posso ver, Marinheiro, todas... Não houve interrupção... Ele se exibiu muito pra Naná, que durante anos lembraria esta cena como um momento mágico e deslumbrante na vida de todos nós. (Eu tive a oportunidade de conversar com o Ivo, tempos depois, sobre este dia e sobre aquela luz.)
Impossível, no calor da despedida, fazer um relato fiel ou mesmo aproximado dos vários talentos do Ivo, como cantor, ator (foi o destaque na versão apresentada no Teatro Guaira para o Rock Horror Show) ou daquilo que vivemos juntos como amigos. Perdi muito da minha inocência hoje.
Toninho Vaz, de Santa Teresa
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Memória analógica V
Na sequência dos acontecimentos registrados em 1996, em Nova York, uma pausa para a festa de Siomara Tauster (produtora da TV Globo) que reuniu um punhado de heterogêneos na 3ª. Avenida: o Ministro da Cultura, Luis Roberto do Nascimento e Silva, os jornalistas Edney Silvestre e Jorge Pontual.. A chinesa Helen Miu, linda, desfilando como uma princesa oriental pelo salão...
Ao lado do piano, onde a coruja costuma dormir, entabulamos – Léo Gandelmann, Astrud Gilberto e eu – uma conversa oportuna sobre tudo, embalados pelo vinho branco.
Oportuna porque eu tinha acabado de ler a biografia de Stan Getz , o genial saxofonista do jazz samba – um representante de Tio Sam no coração da Bossa Nova. Aproveitei então para saber da Astrud se procedia a versão apresentada no livro de que ela se tornara cantora profissional graças a ele, que espetacularmente a arrebatou dos braços de João Gilberto; e que a explosão aconteceu quando Stan foi informado de que Astrud não iria subir no palco do Carmeggie Hall, na famosa noite da BN. Ela era, até então, considerada apenas uma cantora para os ensaios, um duble de voz. Situação que se transformava em escândalo na visão – a esta altura apaixonada – de Stan Getz – o que logo transformou os dois num casal. Stan seria o produtor do primeiro e mais importante disco na carreira de Astrud, cantando em inglês versões de clássicos como The Girl From Ipanema, Desafinado, Wave.
Ela confirmou a história e forneceu outros detalhes, que não vêm ao caso.
(Nos tempos escassos dos filmes da Kodak, restou apenas este registro analógico da festa.)
Foto de Helen Miu.
domingo, 21 de março de 2010
Castro - como foi
Na oficina onde predominavam as professoras das escolas municipais. Foto de Ana Barrios.
Palestra no Teatro Bento Mossurunga. Foto Karina Marques.
Alunos da oficina sobre Leminski. Na primeira fila, os amigos Ana Barrios (fotógrafa), Jaime Lechinski e Leila Pugnaloni, de Curitiba. Foto Karina Marques.Primeira consideração a respeito da viagem: Castro, a 160 km de Curitiba, é uma cidade mimosa, graciosa, dengosa... Traz na sua história uma saga de etnias múltiplas, formada por holandeses, alemães e italianos... Estava na rota dos tropeiros. Tudo com muita ordem e progresso.
A idéia de agora nasceu da artista plástica Karina Marques (da Secretaria de Cultura) que certo dia acordou predisposta a homenagear a poesia de Paulo Leminski, o Polaco. E pôs-se a trabalhar neste sentido, comprometendo prefeito, secretário, biógrafo, alunos, professoras, amigos...
Tudo aconteceu na semana em que Castro – considerada a cidade mãe do Paraná – comemorava 306 anos de existência. (Enquanto Curitiba ainda era uma comarca de SP, Castro seria a primeira cidade do novo Estado).
Tudo aconteceu na semana em que Castro – considerada a cidade mãe do Paraná – comemorava 306 anos de existência. (Enquanto Curitiba ainda era uma comarca de SP, Castro seria a primeira cidade do novo Estado).
O evento foi um sucesso que atraiu até mesmo pessoas (sensíveis) das cidades vizinhas, Ponta Grossa e Carambeí, que compareceram com seus poetas e agentes (informais) de cultura.
De minha parte, fiz uma palestra matinal no histórico Teatro Bento Mossurunga, na praça central, para cerca de cem pessoas interessadas no assunto. Participação especial do ator Ariano na leitura de poemas de P. Leminski.
De minha parte, fiz uma palestra matinal no histórico Teatro Bento Mossurunga, na praça central, para cerca de cem pessoas interessadas no assunto. Participação especial do ator Ariano na leitura de poemas de P. Leminski.
À tarde, na Oficina que investigava as raízes culturais e literária do poeta do Pilarzinho, havia 43 alunos na sala de aula do antigo colégio Vicente Machado, atual Secretaria de Cultura. Durante três horas fizemos uma devassa no Paideuma leminskiano.
À noite, no restaurante Morro do Cristo, um encontro lúdico em torno dos meus livros e de pratos típicos da região, a culinária do tropeiro.
Ainda tivemos tempo suficiente para conhecer a fabulosa gráfica (na verdade, um museu) de Carlito Kluger, quase artesanal, com eficientes rotativas alemãs das indústrias Heidelberg – algumas do século 18.
Castro, às margens do rio Yapó, nos belos Campos Geraes, foi mais uma raiz descortinada da minha história ancestral. E além.
Castro, às margens do rio Yapó, nos belos Campos Geraes, foi mais uma raiz descortinada da minha história ancestral. E além.
Toninho Vaz, de volta a Santa Teresa
quinta-feira, 11 de março de 2010
Dois poemas para Castro
(se quiser pode ler mais embaixo os motivos...)
esta cidade
guarda segredos de mim
metade floresta
metade jardim.
perfume floral
na brisa de março
- 306 anos em Castro
--o--
(que os anjos me carreguem)
sacola de nuvens
repleta de astros
flores silvestres
estrelas sucessivas
no luar de Castro
Toninho Vaz
esta cidade
guarda segredos de mim
metade floresta
metade jardim.
perfume floral
na brisa de março
- 306 anos em Castro
--o--
(que os anjos me carreguem)
sacola de nuvens
repleta de astros
flores silvestres
estrelas sucessivas
no luar de Castro
Toninho Vaz
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Próxima parada: Castro
No dia 17 de março, quarta-feira, estarei na cidade de Castro, no Paraná, fazendo palestra e oficina sobre o poeta Paulo Leminski, tema e personagem do meu livro “O bandido que sabia latim”. Fui convidado a participar do 306º aniversário da cidade – que conheci na minha infância (veja texto abaixo) – oferecendo às professoras da rede pública de ensino (e pessoas sensíveis, em geral), informações necessárias sobre o poeta Paulo Leminski.
À noite do mesmo dia, 17, acontece o lançamento simultâneo de todos os meus livros (5), incluindo a biografia de Torquato Neto, outro poeta reconhecidamente maldito (no bom sentido, é claro!). Vai ser no restaurante Morro do Cristo, onde será servido um típico jantar tropeiro e levantado um brinde em homenagem a Castro, cidade que suscitou essa mini-crônica escrita dias atrás:

Minhas lembranças de Castro – como aquarelas esmaecidas – são tão remotas quanto a minha infância. Elas foram proporcionadas por duas ou três viagens de trem de Curitiba para Jaguariaiva – saindo no final da tarde da capital e chegando nove horas depois ao destino. Estou falando da década de 1950. Era uma aventura nos vagões da RVPSC.
A parada intermediária, em Castro, era a principal atração da viagem, marcada pelo cenário magnífico e esplendoroso dos Campos Gerais. Através da janela do trem, de maneira lenta e preguiçosa, se descortinava o mais belo de todos os nossos ícones, a araucária.
Depois, adolescente, fiquei conhecendo os prodígios da produção batava de laticínios na região, desenvolvida por uma colonização ordeira, produtiva e refinada que nos chegava à mesa, em Curitiba, como um orgulho do Paraná. (Minha mãe era freguesa semanal do entreposto de vendas da Batavo, na Rua Saldanha Marinho)
Certa vez, aos 18 anos, abstraído em pensamentos na janela de um ônibus, em Curitiba, fui surpreendido pela voz do passageiro ao lado, um senhor de cabelos brancos e compridos que me interpelou carinhosamente:
- Pessoa tão jovem não deveria ter pensamentos tão profundos.
Era o maestro Bento Mossurunga, meu vizinho no Jardim das Américas, a quem, depois de ter sido apresentado nesta circunstância, pude render tributo como uma das personalidades mais desenvolvidas da nossa cultura.
Portanto, voltar agora para comemorar os 306 anos de Castro significa ganhar rara oportunidade de rever a minha história e o povo do meu Paraná. De me emocionar novamente com a paisagem da minha infância, incluindo os cânions de tirar o fôlego e o verde, o verde mais verde que existe... Sim, eu vou!
Toninho Vaz, de Santa Teresa
À noite do mesmo dia, 17, acontece o lançamento simultâneo de todos os meus livros (5), incluindo a biografia de Torquato Neto, outro poeta reconhecidamente maldito (no bom sentido, é claro!). Vai ser no restaurante Morro do Cristo, onde será servido um típico jantar tropeiro e levantado um brinde em homenagem a Castro, cidade que suscitou essa mini-crônica escrita dias atrás:

EU VOU!
Minhas lembranças de Castro – como aquarelas esmaecidas – são tão remotas quanto a minha infância. Elas foram proporcionadas por duas ou três viagens de trem de Curitiba para Jaguariaiva – saindo no final da tarde da capital e chegando nove horas depois ao destino. Estou falando da década de 1950. Era uma aventura nos vagões da RVPSC.
A parada intermediária, em Castro, era a principal atração da viagem, marcada pelo cenário magnífico e esplendoroso dos Campos Gerais. Através da janela do trem, de maneira lenta e preguiçosa, se descortinava o mais belo de todos os nossos ícones, a araucária.
Depois, adolescente, fiquei conhecendo os prodígios da produção batava de laticínios na região, desenvolvida por uma colonização ordeira, produtiva e refinada que nos chegava à mesa, em Curitiba, como um orgulho do Paraná. (Minha mãe era freguesa semanal do entreposto de vendas da Batavo, na Rua Saldanha Marinho)
Certa vez, aos 18 anos, abstraído em pensamentos na janela de um ônibus, em Curitiba, fui surpreendido pela voz do passageiro ao lado, um senhor de cabelos brancos e compridos que me interpelou carinhosamente:
- Pessoa tão jovem não deveria ter pensamentos tão profundos.
Era o maestro Bento Mossurunga, meu vizinho no Jardim das Américas, a quem, depois de ter sido apresentado nesta circunstância, pude render tributo como uma das personalidades mais desenvolvidas da nossa cultura.
Portanto, voltar agora para comemorar os 306 anos de Castro significa ganhar rara oportunidade de rever a minha história e o povo do meu Paraná. De me emocionar novamente com a paisagem da minha infância, incluindo os cânions de tirar o fôlego e o verde, o verde mais verde que existe... Sim, eu vou!
Toninho Vaz, de Santa Teresa
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Deu na Rolling Stone (nas bancas)
Uma casa engraçada
Zelador da história – Toninho Vaz, o autor do livro sobre a lendária residência carioca.
Livro resgata a história do Solar da Fossa, sede não oficial da arte brasileira. Por Anna Virginia Balloussier
Se já existisse Google Maps nos anos 60, a localização do Solar da Fossa bem que podia cair no número zero da Rua dos Bobos. Como na música de Vinicius de Moraes, era, de fato, uma casa muito engraçada aquela onde coexistiram mais artistas por metro quadrado do que emo em liquidação da chapinha de cabelo. O endereço de verdade ficava na Rua Lauro Muller, no.116, em Botafogo, no terreno que hoje abriga o Rio Sul, primogênito dos shoppings cariocas. Por lá iam e vinham Paulo Coelho, Gal Costa, Paulinho da Viola, Tim Maia e tantos – praticamente todo mundo que apitou sua arte naqueles primeiros e chumbados anos de ditadura. Também havia alguns remanescentes da primeira geração de inquilinos, como senhorinhas e dois travestis que mantinham salão de cabeleireiro na entrada.
Amigo do poeta Paulo Leminski, outro a manter um cantinho na construção de estilo colonial, o jornalista Toninho Vaz mapeou no livro Solar da Fossa, a República dos Magros a historia desses moradores, fixos ou itinerantes, dos 85 apartamentos – de quitinete a dois quartos com banheiro coletivos para alguns – da Pensão Santa Teresinha. Por um tempo, o Solar, levantado no século 18 para ser fazenda, funcionou como manicômio para mulheres. Não que a versão sessentista estivesse tão distante desse passado eclético. Espécie de feudo lisérgico, o espaço era “símbolo da loucura das drogas, com muita maconha, ácido e bebida", segundo Vaz.
Os atores Claudio Marzo e Betty Faria se casaram no pátio. Entre as paredes do Solar da Fossa, Caetano Veloso viajou nas espaçonaves e guerrilhas de “Alegria, Alegria”. E, claro, tinha os amigos. Em trecho, Jards Macalé conta sobre a noite em que desvirginou “uma moçoila na cama do Rogério Duarte”, designer das capas de disco da tropicália.
Para o diretor de TV, Roberto Talma, a lei do Solar da Fossa era clara: “Se você não tinha algum conhecimento de arte, um pouco de filosofia ou alguma consistência política, não comia ninguém”. Cabe ao diretor de teatro Aderbal Freire-Filho, parte da última leva de residentes , em 1970, desmanchar essa atmosfera de república universitária: “Não era ambiente de bagunça. Não lembro de droga pesada, fora fumo e LSD” .
O Solar foi chamado de “ilha da felicidade” num período tão ruim da vida política brasileira. O autor, Toninho Vaz, esclarece que o Solar existiu de 1964 a 1971, quando as portas foram definitivamente lacradas.
“Nos difíceis dias da ditadura, boa parte das mentes criativas estavam no Solar da Fossa.”
Livro resgata a história do Solar da Fossa, sede não oficial da arte brasileira. Por Anna Virginia Balloussier
Se já existisse Google Maps nos anos 60, a localização do Solar da Fossa bem que podia cair no número zero da Rua dos Bobos. Como na música de Vinicius de Moraes, era, de fato, uma casa muito engraçada aquela onde coexistiram mais artistas por metro quadrado do que emo em liquidação da chapinha de cabelo. O endereço de verdade ficava na Rua Lauro Muller, no.116, em Botafogo, no terreno que hoje abriga o Rio Sul, primogênito dos shoppings cariocas. Por lá iam e vinham Paulo Coelho, Gal Costa, Paulinho da Viola, Tim Maia e tantos – praticamente todo mundo que apitou sua arte naqueles primeiros e chumbados anos de ditadura. Também havia alguns remanescentes da primeira geração de inquilinos, como senhorinhas e dois travestis que mantinham salão de cabeleireiro na entrada.
Amigo do poeta Paulo Leminski, outro a manter um cantinho na construção de estilo colonial, o jornalista Toninho Vaz mapeou no livro Solar da Fossa, a República dos Magros a historia desses moradores, fixos ou itinerantes, dos 85 apartamentos – de quitinete a dois quartos com banheiro coletivos para alguns – da Pensão Santa Teresinha. Por um tempo, o Solar, levantado no século 18 para ser fazenda, funcionou como manicômio para mulheres. Não que a versão sessentista estivesse tão distante desse passado eclético. Espécie de feudo lisérgico, o espaço era “símbolo da loucura das drogas, com muita maconha, ácido e bebida", segundo Vaz.
Os atores Claudio Marzo e Betty Faria se casaram no pátio. Entre as paredes do Solar da Fossa, Caetano Veloso viajou nas espaçonaves e guerrilhas de “Alegria, Alegria”. E, claro, tinha os amigos. Em trecho, Jards Macalé conta sobre a noite em que desvirginou “uma moçoila na cama do Rogério Duarte”, designer das capas de disco da tropicália.
Para o diretor de TV, Roberto Talma, a lei do Solar da Fossa era clara: “Se você não tinha algum conhecimento de arte, um pouco de filosofia ou alguma consistência política, não comia ninguém”. Cabe ao diretor de teatro Aderbal Freire-Filho, parte da última leva de residentes , em 1970, desmanchar essa atmosfera de república universitária: “Não era ambiente de bagunça. Não lembro de droga pesada, fora fumo e LSD” .
O Solar foi chamado de “ilha da felicidade” num período tão ruim da vida política brasileira. O autor, Toninho Vaz, esclarece que o Solar existiu de 1964 a 1971, quando as portas foram definitivamente lacradas.
* * *
“Nos difíceis dias da ditadura, boa parte das mentes criativas estavam no Solar da Fossa.”
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Memória analógica IV
Nos três anos em que morei em Nova York, de 1996 a 1998, algumas vezes fui privilegiado ao me aproximar dos ambientes de boa música (saravá, Roberto Muggiati) e de personagens talentosos do show bussiness americano. Mas, nem sempre foram encontros registrados por instrumentos analógicos fotográficos (antes da era digital) como aconteceu na noite em que conheci o saxofonista Lou Marini, integrante original da Blues Brother’s Band – ao lado de Dan Aycroyd e John Beluchi. Lou também era convidado eventual para engrossar o caldo em apresentações de grupos como Blood, Sweat and Tears ou Frank Zappa, com quem tocou em 1977 no álbum Zappa in New York.Fui apresentado a Lou num bar na rua 58, west, 1997, quando comemorava-se com uma jam (sensacional) o aniversário de um pianista (esqueci o nome), batendo na casa dos 6 ponto 6. Chovia muito lá fora e isso parecia contribuir para o bom clima dentro do bar – motivado pelo aconchego e, de certa forma, pela segurança. Foi mesmo uma carraspana generalizada.
Mesmo não sendo fanático de carteirinha por blues (como o Carlão e o Frejat, que sabem tudo), eu guardava nítido na memória a entrada em cena de Lou no filme original d’Os irmãos cara-de-pau: ele era o chapeiro da lanchonete de Aretha Franklin no momento em que os brothers aparecem para convencê-la a participar do tal show beneficente – tema central do filme. Os dois dispensam os aventais e se incorporam a banda. O resto a gente já sabe: um espetacular show de Ray Charles, Cab Calloway, James Brown e um fabuloso elenco de atores e músicos.
(Merece referência especial o autor da foto: meu amigo Stu Deutsch, natural do Wisconsin e ligado ao cinema como técnico de captação de som ambiente em filmes de Spike Lee, Babenco, Tizuka Yamazaki, José Joffily e Bruno Barreto. Foi ele quem me apresentou ao Lou.).
Toninho Vaz
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Extra! Extra! Solar da Fossa
Foto histórica do casarão colonial, feita pelo Malta na entrada do tunel de Copacabana, onde, décadas depois, seria instalado o lendário Solar da Fossa. Hoje temos ali o shopping Rio Sul.Amigos, leitores, a quem interessar:
O juiz de Direito, Sérgio de Arruda Fernandes, da 21ª. Vara Cível do Rio de Janeiro julgou procedente a ação judicial que, através de minha advogada, Tânia Borges, impetrei contra a editora Record há um ano exatamente. A ação visava impedir que a Record efetivasse a impressão e distribuição fraudulentas do meu livro “Histórias e canções do Solar da Fossa” (título de contrato e de trabalho). Com a informação confidencial de que a editora estava imprimindo 3 mil exemplares do livro, na calada da noite e à revelia do autor, encaminhei pedido de liminar ao juiz que, em prazo de 48 horas, acatou o apelo. Os livros – impressos de maneira tosca e irresponsável (sem fotos e prefácio)– foram interceptados pelo oficial de justiça quando eram colocados nos caminhões para distribuição nacional.
Um ano se passou.
Em sentença datada do último dia 26 de janeiro, o juiz reconhece que houve quebra de contrato por parte da Record, que negligenciou nos prazos preestabelecidos, permitindo que o mesmo perdesse o seu valor. Assim, o autor, Toninho Vaz, por decisão judicial, deve ser empossado de todos os direitos sobre a obra e, para não prejudicá-lo na tarefa de renegociar o livro com outra editora, a Record deverá mandar publicar – por dois dias intercalados –, em jornal carioca de grande circulação, notícia dando conhecimento público da decisão judicial. Em tamanho 20 x 20 cm. O juiz também condenou a ré aos pagamentos de custas processuais e honorários advocatícios.
Aguarda-se a publicação em Diário Oficial, o que deve acontecer na próxima segunda feira, dia 1º de fevereiro 2010.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Memória analógica III

Esta foto feita no pré-carnaval de 1991, durante reportagem para a TV Globo, serve como registro da volta de Paulinho da Viola à Portela, depois de anos de afastamento – período em que se tornou folião, compositor e ritmista da Tradição.
O cinegrafista José de Arimatéia, trocando por um instante de câmera, mostra o estado maior do samba carioca, a partir da esquerda: José Carlos (produtor de TV), Seu Alberto, Argemiro e Casquinha, da Portela; Paulinho da Viola e a turma da Mangueira: Xangô, Comprido e Darcy do Cavaco; e Dulce (produtora).
São grandes nomes da velha guarda das duas escolas, sendo que a Mangueira era a convidada especial de Paulinho para a gravação do seu comentário semanal. Eu era o editor – um curitibano no reino d’África.
Depois da gravação, que aconteceu na quadra da Portela, fomos para um botequim ao lado da escola, em Madureira, onde o samba seguiu o padrão dos bambas. Na mesa, cerveja e linguicinha no palito – nesta época, ainda com trema.
Toninho Vaz
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Memória analógica II

Eu já era leitor e admirador das crônicas e romances de José Carlos Oliveira quando fui entrevistá-lo em sua casa para a revista Atenção, editada em Curitiba nos anos 70. Chegamos (o fotógrafo Zeka Araújo estava escalado) por volta das 11 horas, como combinado. Era um apartamento típico de solteiro, numa rua interna e tranqüila do Leblon, próximo ao quartel do Exército e sem nenhum sinal de trânsito ou buzinas... Mas o nosso entrevistado ainda estava acordando, cheio de ressaca, a deduzir pela sua exclamação inicial: “Parece que um caminhão de uísque passou sobre a minha cabeça!”. O mais interessante cronista do Jornal do Brasil, capixaba, parecia um carioca da zona sul.
Depois de gravar a primeira parte da conversa na sala do apartamento, abordando origens e lembranças do Espírito Santo, até a chegada ao Rio, decidimos continuar as reminiscências numa mesa de bar. E seguimos para o tradicional Degrau, na Ataulfo de Paiva. Carlinhos pediu um uísque e eu fui de chopinho com mini pasteis (uma especialidade da casa). Ele apenas bebeu.
Carlinhos Oliveira faleceu em 1986 – portanto, quase dez anos depois – em decorrência de problemas com o alcoolismo. Suas últimas crônicas escritas durante o doloroso tratamento, em Paris, ainda estão na minha memória. Aliás, Carlinhos Oliveira não me sai da memória.
Toninho Vaz
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Memória analógica I
Meus dois encontros com Pat Matheney aconteceram no Leblon durante a Guerra do Golfo, inicio dos anos 90. Preocupado com a (des) ordem mundial e com a onda de atentados terroristas a alvos norte-americanos, o guitarrista decidiu refugiar-se no Rio, aceitando gentil convite de amiga brasileira. No dia seguinte ao primeiro encontro, registrado pelo fotógrafo José Roberto Serra, fizemos um lanche no Gordon (ele pediu um milk shake), na pequena praça - hoje praça Cazuza. Nas duas conversas falamos de generalidades que renderam uma pequena reportagem chamada Yes, nós temos Matheney, na revista de domingo do Jornal do Brasil. Amigo pessoal do percussionista Marçalzinho, que tocava em sua banda, tornou-se fã da escola de samba Vila Isabel. (No resto do tempo pela cidade, Pat era visto circulando entre as mesas do Mistura Fina, Jazzmania e People.) Uma temporada que durou três meses.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Prefácio
O primeiro trabalho do ano: texto de apresentação do livro de Pablo Treuffar – jovem poeta carioca. Está no prelo.
Dentro de Pablo Treuffar existe um espírito indômito, irreverente e irônico a gritar conceitos e impropérios através de versos livres (de métrica, inclusive) que nos chegam como flagrantes do cotidiano e das emoções do autor. Isso de escrever sem apoio das delongas Pablo Treuffar aprendeu com os mestres que orientam suas leituras – Rubem Fonseca e John Fante, por exemplo.
Sem pressa, mas com alguma urgência, o jovem poeta faz uso do pensamento/discurso na primeira pessoa para oferecer fúria e revolta sempre contundentes. A indignação em primeiro lugar. Os versos de Pablo Treuffar são – não de forma unilateral, pois existem outros atributos – revigorantes de uma energia perdida pelo leitor num passado recente.
Toninho Vaz
(prefácio de A doença é a desculpa do caráter, livro de poemas de P. Treuffar)
Dentro de Pablo Treuffar existe um espírito indômito, irreverente e irônico a gritar conceitos e impropérios através de versos livres (de métrica, inclusive) que nos chegam como flagrantes do cotidiano e das emoções do autor. Isso de escrever sem apoio das delongas Pablo Treuffar aprendeu com os mestres que orientam suas leituras – Rubem Fonseca e John Fante, por exemplo.
Sem pressa, mas com alguma urgência, o jovem poeta faz uso do pensamento/discurso na primeira pessoa para oferecer fúria e revolta sempre contundentes. A indignação em primeiro lugar. Os versos de Pablo Treuffar são – não de forma unilateral, pois existem outros atributos – revigorantes de uma energia perdida pelo leitor num passado recente.
Toninho Vaz
(prefácio de A doença é a desculpa do caráter, livro de poemas de P. Treuffar)
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Toninho Vaz - Wikipédia, a enciclopédia livre
Toninho Vaz - Wikipédia, a enciclopédia livre
Amigo leitor: por obra e graça do jovem poeta Pablo Treuffar (um leitor de Leminski e Torquato), ganhei um verbete na Wikipedia, que vocês conhecem de outras pesquisas. Nada muito especial (sou um dos últimos), nada muito sofisticado. Que seja, portanto, mais uma ferramenta de trabalho.
Amigo leitor: por obra e graça do jovem poeta Pablo Treuffar (um leitor de Leminski e Torquato), ganhei um verbete na Wikipedia, que vocês conhecem de outras pesquisas. Nada muito especial (sou um dos últimos), nada muito sofisticado. Que seja, portanto, mais uma ferramenta de trabalho.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Fim de ano - clima de festa
Meu encontro com o conterrâneo Roberto Muggiati aconteceu depois de décadas vivendo na mesma cidade. Foi na festa da agência de Valéria Martins, na Academia da Cachaça, Leblon. Editor da revista Manchete durante a fase áurea, Muggiati freqüenta a minha biblioteca desde o tempo de Rock, o mito e o grito, ensaio dos anos 70, o primeiro olhar atento para a nova manifestação musical. Foto de Luiz Augusto Gollo.domingo, 29 de novembro de 2009
Como leve pousa
Silvia e Loriel, os vencedores. Fotos de Toninho Vaz.
Silvia Maria e Bia Bedran: as atrizes se encontram em Curitiba.Aconteceu bem cedo no restaurante do hotel em Curitiba. Quando entrei no salão, logo depois das 7 horas, havia poucas pessoas nas mesas – um casal logo na entrada e duas mulheres mais ao fundo. Servi-me de suco de laranja, salada de frutas, talheres e fui me sentar na mesa mais distante, à esquerda, quase na porta da cozinha. Ato contínuo, percebo uma moça bonita, longilínea, entrar e se dirigir calmamente ao balcão de frutas e sucos. Meu olhar acompanhou. Estava equipada para o calor que fazia, trajando um vestido branco de rendas, com duas alças finas a segurá-lo em ombros desnudos, elegantes e perfeitos. Os cabelos molhados.
Ela foi cautelosa ao escolher as frutas. Levou para o pequeno prato pedaços de mamão e melancia. Pegou os talheres, girou o corpo pra esquerda e veio caminhando em minha direção. Cada vez mais perto...
Ela foi cautelosa ao escolher as frutas. Levou para o pequeno prato pedaços de mamão e melancia. Pegou os talheres, girou o corpo pra esquerda e veio caminhando em minha direção. Cada vez mais perto...
Para minha surpresa, sentou-se na minha mesa, bem na minha frente ficando de costas para o salão praticamente vazio. Confesso que me agitei, virando o corpo para a direita e cruzando as pernas como se estivesse abrindo um jornal, tentando ser o mais natural possível. Tudo acompanhado por um silêncio notável – nem um bom dia foi ouvido. Neste momento um rapaz de aparentes 30 anos aproximou-se e dirigindo-se a moça saudou-a com boas maneiras:
- Bom dia, Silvia.
E virando-se pra mim, de mão estendida e levemente curvado:
- Bom dia, como vai?
E sentou-se ao meu lado direito... Fez alguma consideração sobre o fator climático nas ruas, mas logo silenciou. Tinha nas mãos uma pasta onde se lia UFPR. Foi quando me ocorreu dizer alguma coisa que pudesse me ajudar:
- Até parece que somos do mesmo grupo, não?
Ela explicou que não estavam em grupo. Ela era de Belo Horizonte e estava hospedada no hotel, mas o rapaz morava em Curitiba. Mais uma surpresa. E foi além:
- Nós somos vencedores do concurso nacional Loucos por Diversidade, promovido pelo Ministério da Saúde e pelo MinC.
-??
Diante do meu silêncio, ela continuou:
- Somos portadores de sofrimento mental.
- ??
Silvia Maria, este era o nome dela, explicou que ambos haviam vencido o concurso nacional em suas respectivas áreas: ela no teatro (como atriz) pela peça Caixa Preta e Loriel (este o nome do rapaz) na categoria Literatura com dois livros de poesia: A Arte da Urgência e O Sentido [In]sano. Depois de descobrir que a beleza da moça nascia da sua serenidade interna (!) tive que me conformar com a calma dela ao me advertir:
- Você pode ficar chocado, mas meu diagnóstico é de esquizofrenia. O Loriel é portador de ideologia transversal.
- ??
Fiquei ali boa parte da manhã conversando com os dois anjos que pousaram na minha mesa. Como num lance de dados. Fiz uma foto da Silvia com a Bia Bedran, que ela reconheceu na mesa ao lado. Silvia Maria (do grupo Sapos & Afogados) me pareceu uma ativista da causa que a movia até Curitiba (a UFPR faz parte do projeto) e Loriel, curitibano, sabia muito sobre Paulo Leminski, o poeta do Pilarzinho. Tudo se encaixava... Agora eles se preparam para, no inicio de dezembro, receber o prêmio de fato no Rio de Janeiro.
Difícil de acreditar que ambos, tão afáveis e positivos, tivessem algum tipo de sofrimento mental. Enquanto tem sujeito por aí circulando... bem, vocês sabem...
- Bom dia, Silvia.
E virando-se pra mim, de mão estendida e levemente curvado:
- Bom dia, como vai?
E sentou-se ao meu lado direito... Fez alguma consideração sobre o fator climático nas ruas, mas logo silenciou. Tinha nas mãos uma pasta onde se lia UFPR. Foi quando me ocorreu dizer alguma coisa que pudesse me ajudar:
- Até parece que somos do mesmo grupo, não?
Ela explicou que não estavam em grupo. Ela era de Belo Horizonte e estava hospedada no hotel, mas o rapaz morava em Curitiba. Mais uma surpresa. E foi além:
- Nós somos vencedores do concurso nacional Loucos por Diversidade, promovido pelo Ministério da Saúde e pelo MinC.
-??
Diante do meu silêncio, ela continuou:
- Somos portadores de sofrimento mental.
- ??
Silvia Maria, este era o nome dela, explicou que ambos haviam vencido o concurso nacional em suas respectivas áreas: ela no teatro (como atriz) pela peça Caixa Preta e Loriel (este o nome do rapaz) na categoria Literatura com dois livros de poesia: A Arte da Urgência e O Sentido [In]sano. Depois de descobrir que a beleza da moça nascia da sua serenidade interna (!) tive que me conformar com a calma dela ao me advertir:
- Você pode ficar chocado, mas meu diagnóstico é de esquizofrenia. O Loriel é portador de ideologia transversal.
- ??
Fiquei ali boa parte da manhã conversando com os dois anjos que pousaram na minha mesa. Como num lance de dados. Fiz uma foto da Silvia com a Bia Bedran, que ela reconheceu na mesa ao lado. Silvia Maria (do grupo Sapos & Afogados) me pareceu uma ativista da causa que a movia até Curitiba (a UFPR faz parte do projeto) e Loriel, curitibano, sabia muito sobre Paulo Leminski, o poeta do Pilarzinho. Tudo se encaixava... Agora eles se preparam para, no inicio de dezembro, receber o prêmio de fato no Rio de Janeiro.
Difícil de acreditar que ambos, tão afáveis e positivos, tivessem algum tipo de sofrimento mental. Enquanto tem sujeito por aí circulando... bem, vocês sabem...
Toninho Vaz
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Um mimo
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Evento em Curitiba - como foi
Com Bia Bedran no Passeio Público de Curitiba, bate papo numa folga do trabalho. Foto de Angela Bussmann.
Com Silvio de Tarso (radialista), Bia Bedran e Tiago Recchia ao final da entrevista para um programa de rádio. Na platéia , mais de 500 bibliotecários (agentes de leitura). Foto de Daniel Faria.
Com o músico Carlos Careqa nas ruas de Curitiba. Careqa é o do meio. Foto de Angela Bussmann.Foram seis dias em Curitiba, três deles consumidos de forma intensa com palestras e oficinas para agentes de leitura (bibliotecários) da rede municipal de educação. A palestra no primeiro dia foi para mais de 1.200 pessoas e as oficinas, ao longo de tres tardes, para cerca de 30 alunas. No meio, uma entrevista coletiva para uma rádio local com direito a palco e platéia.
Foram dias iluminados – tanto pelo sol forte como pelas pessoas que encontrei pelo caminho: a professora Nanci Nóbrega (PUC-RJ), os músicos Carlos Careqa, Téo Ruiz e Bia Bedran, o agitador Fabio Dallas e a secretária (de Educação) Eleonora Fruet (a simpática filha do ex-prefeito Mauricio Fruet). Deixo de nominar um punhado de gente afável, incluindo minhas alunas, que demonstraram real interesse na vida e na obra de Paulo Leminski. Juntos, partimos em busca de um provável paideuma leminskiano – ou seja, de autores e obras que influenciaram a formação cultural e intelectual do poeta do Pilarzinho.
Menção honrosa para a equipe de produção da Prefeitura, que trabalhou com dedicação e leveza em terreno árido e logística complicada. Me refiro a Daniel Faria, Marilda Confortin, Margareth Fuchs e todas as meninas do Evento. No apagar da vela, conheci dois figuraças da cidade: o poeta Thadeu Wojciechowski e o cartunista Tiago Recchia (que substituía o também cartunista Solda, sendo ambos ilustradores de trabalhos de Leminski).
Mais informações na chamada abaixo.
Mais informações na chamada abaixo.
Toninho Vaz
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